Uma Breve História do Budismo

Bukkyo Dendo Kiokai


1- NA ÍNDIA

Quando a "Luz da Ásia" surgiu brilhantemente na Índia Central foi assinalado um dos maiores acontecimentos que marcaram época na história espiritual da humanidade; ou em outras palavras, quando a Fonte da Grande Sabedoria e compaixão aí se transbordou, enriqueceu a mente humana, através dos séculos, até os dias atuais.

O Buda Gautama mais tarde conhecido como Sakyamuni ou o "Sábio do clã Sakya" pelos adeptos budistas, abandonou o aconchego do lar, tornou-se um monge mendicante e dirigiu-se rumo ao sul, até Magadha, onde, presumivelmente, nos meados do século V a.C., estando em meditação sob a árvore BO (Bodhi-Ficus Religiosa), alcançou a Iluminação. A partir desse momento começou Sua árdua e difícil missão, continuando-a, incansavelmente, no decorrer de longos quarenta anos, até a Sua "Grande Morte", com a qual entrou no Nirvana, pregando a Sabedoria e Compaixão. Após a sua morte, muitos e grandes templos budistas continuaram a aparecer em reinos e em várias tribos da Índia Central.

Durante o reinado do Rei Asoka (268-232 a.C.), o terceiro governante do Reino de Mauria, o ensinamento do Buda Gautama disseminou-se por toda a Índia, chegando mesmo a se propagar para além das fronteiras do país.

O reino Mauria foi o primeiro estado monárquico a se consolidar na Índia. Este reino, no tempo de seu primeiro governador Candragupta (316-293 a.C. aproximadamente) já ocupava um vasto domínio, que se limitava com as montanhas do Himalaia, ao norte, ao leste com o Golfo de Bengala; a oeste, com as montanhas Hindu kush, e ao Sul, com as montanhas Vindhya. O Rei Asoka expandiu, posteriormente, este domínio até o Planalto do Deccan, conquistando o reino de Kalinga e de outros.

Este rei era tido como muito furioso por natureza e era chamado de Candasoka (o Furioso Asoka) pelo povo; mas seu caráter mudou completamente e ele se tornou sincero devoto do ensinamento da Sabedoria e Compaixão após testemunhar as devastações causadas pela guerra, na qual Kalinga foi conquistado. Após esse episódio, ele fez muitas coisas como crente budista, entre as quais se destacam dois empreendimentos dignos de honra.

O primeiro foii o "édito de Asoka" ou os princípios administrativos, baseados no ensinamento budista, gravados em pilares de pedra ou em rochas polidas, que ele colocou em numerosos lugares, disseminando assim o ensinamento de Buda. Em segundo lugar, ele enviou missões para todos os lugares, para além do seu reino até outros países, para que levassem o ensinamento da Sabedoria e Compaixão. Especialmente notável é o fato de que algumas dessas missões foram atingir lugares como a Síria, Egito, Quirene, Macedônia e Épiro, disseminando o budismo no mundo ocidental. Além disso, Mahendra, o embaixador enviado a Tamraparni ou Ceilão, foi bem sucedido ao "estabelecer o maravilhoso ensinamento nesta bela e tranqüila Lankadvipa (Ceilão)", iniciando, assim, a propagação do budismo em direção sul da ilha.

2- A AURORA DO BUDISMO MAHAYANA

Referindo-se aos primórdios do budismo, os budistas de anos posteriores costumam mencionar o "Movimento Oriental do budismo", mas a face do budismo esteve, durante muitos séculos antes de Cristo, evidentemente voltado para o ocidente. Foi apenas um pouco antes ou depois do início da Era Cristã que esta face do budismo começou a se voltar para o oriente. Entretanto, antes de falarmos sobre este assunto, devemos falar sobre a grande mudança que ocorria no budismo. Esta mudança nada mais é do que a "Nova Onda", conhecida como o Budismo Mahayana ou o Grande Veículo do Budismo, que começava a se arraigar e aparecer como notável elemento no ensino da época.

Quando, como e por quem esta "nova Onda" foi iniciada? Ninguém ainda pode dar a resposta definitiva a estas questões. Quanto a isso, apenas podemos dizer que: Primeiro, esta tendência deve ter surgido no seio da escola Mahasanghika, e trazida à luz pela maioria dos sacerdotes progressistas da época; segundo, o fato é que já havia alguns fragmentos importantes das escrituras mahayanas, durante o período que vai desde o primeiro ou segundo século a.C. até o primeiro século da Era Cristã. E quando o magnífico pensamento de Nagarjuna, endossado pelas escrituras mahayanas, desenvolveu-se, o budismo mahayana apresentou-se vigorosamente no primeiro plano do palco da história religiosa.

O papel desempenhado pelo budismo mahayana foi muito grande e significativo na longa história do budismo. Assim, o budismo na China e no Japão desenvolveu-se, sofrendo muitas influências da doutrina mahayana. Isto não parecerá estranho, pois já se desenvolvia um novo ideal para a salvação das massas, considerando os novos santos como Bodhisattvas para pôr em prática este ideal; e, para ratificar usso, os resultados intelectuais nos domínios metafísicos e psicológicos trazidos pelos pensadores mahayanistas, foram realmente magníficos. Desta maneira, embora, de um lado, estivessem relacionados à doutrina de Buda Gautama, por outro, muitos novos aspectos da Sabedoria e Compaixão lhe foram acrescentados. Com estes acréscimos, o budismo cresceu em ardor e energia e chegou a enriquecer os países do leste, como as impetuosas correntes de um grande rio.

3- NA ÁSIA CENTRAL

Foi através dos países da Ásia Central que a China veio a aprender o budismo. Portanto, para se falar da disseminação do budismo da Índia para a China, é necessário que se diga algo sobre a Rota da Seda. Esta rota, aberta durante o reinado do Imperador Wu, da Dinastia Han (140-87 a.C.), atravessava infindáveis territórios da Ásia Central e ligava o ocidente ao oriente. Por esta época, o domínio de Han se estendia para o oeste, e em países vizinhos como Fergana, Sogdiana, Tokhara e mesmo na Parthia, o espírito mercantilista inspirado por Alexandre, o Grande, ainda estava vigorosamente ativo. Ao longo desta importante rota que passava por estes países, a seda desempenhava o mais importante papel no intercâmbio comercial, daí o nome de Rota da Seda. Pouco antes ou depois do Início da Era Cristã, a Índia e a China iniciaram os seus novos contatos culturais, através desta rota do comércio. Assim, esta rota pode ser considerada também como a rota da expansão do budismo.

4- CHINA

A história do budismo chinês tem início na época em que se aceitaram e se traduziram as escrituras budistas. A mais velha obra da qual se tem conhecimento parece ser a "Ssu-shih-êr-châng-ching"( O Sutra em Quarenta e Duas Seções Pregado por Buda.) feita por Kasyapamatanga e outros durante a era Ying-P'ing (58-76 AD) do Imperador Ming, da Dinastia Han posterior; mas hoje é considerada como uma duvidosa história legendária. A abalizada opinião dos estudiosos atribui esta tradução a Na-shin-Kao, que era tradutor em Lo-yang, de 148 a 171 a.D., aproximadamente. Desta época até a era da Dinastia Sung Setentrional (960-1129 a.D.), os trabalhos de tradução continuaram durante quase mil anos.

Durante os primeiros anos, os responsáveis pela introdução e tradução das escrituras foram os monges vindos, em sua maioria, dos países da Ásia Central. Por exemplo, Na-shin-Kao, acima mencionado, veio da Parthia; K'na-sêng-K'ai, originário de uma região de Samarcanda, chegou a Lo-yang por volta do século III, e traduziu o Sukhavativyuha (O Livro da Vida Ilimitada). Além disso, Chufa-hu ou Dharmaraksha, que é conhecido como o tradutor de Saddharmapundarika", veio de Tokhara e se estabeleceu em Loyang ou Ch'ang-an, em fins do século III até os princípios do século IV. Quando Kumarajiva, veio de Kucha, no início do século V, os trabalhos de tradução atingiram o seu auge.

Nesta época, os monges começaram a desenvolver suas reais atividades, ao empreenderem viagens à Índia, para estudar o sânscrito e a doutrina budista. O pioneiro deles todos foi o monge Fa-hsien (339-420? a.D.). Saindo de Lo-yang em 399 a.D., foi à Índia, de onde retornou 15 anos mais tarde. O mais notável desses monges que viajaram até a Índia dói Hsuan-Chuang (600-664 a.D.), que partiu para a Índia em 627 a.D., aí permanecendo durante 19 anos e daí voltou em 645 a.D. Mais tarde, I-ching (635-713 a.D.), (não confundir com o livro I-ching) foi à Índia, por mar, em 671 a.D. e regressou pela mesma rota, vinte e cinco anos depois.

Estes monges visitaram a Índia, por livre vontade, para aprender o sânscrito e trazer para casa as escrituras por eles escolhidas, e tiveram papel importante nos trabalhos de tradução das mesmas. O mais importante deles foi Hsuan-chuang, cuja notável habilidade lingüística e cujo eficaz e consciente trabalho fizeram com que os trabalhos de tradução das escrituras, na China, alcançassem outro apogeu. As obras dos primeiros tempos feitas por aqueles representados por Kumarajiva são chamadas as "Velhas Traduções", e as obras de Hsuan-chuang e dos últimos tradutores são chamadas as "Novas Traduções" pelos estudiosos budistas nos últimos períodos.

Baseando-se nos inúmeros volumes das escrituras budistas que foram traduzidas do sânscrito, a tendência do pensamento e das atividades religiosas desses homens letrados foi pouco a pouco se adaptando à cultura chinesa. Daí a clara manifestação da natureza racial, das necessidades e das esperanças do povo chinês. Os vacilantes ensaios que os monges empreenderam no campo metafísico em relação à "não-substancialidade" e principalmente no que diz respeito ao Prajna (Sabedoria) dos Sutras, foram uma manifestação desta tendência. Posteriormente, abandonaram o assim chamado "Hinayana"ou o Veículo Menor, e voltaram sua atenção ao "Mahayana", o Grande Veículo. Além disso, com a escola Tendai, esta tendência ganhou importância e notabilidade, e com o aparecimento da escola Zen, ela alcançou o seu auge.

A escola Tendai, aperfeiçoada por Tendai Daishi Chih-i (538-597 a.D), seu terceiro patriarca, alcançou a sua plenitude, na China, na última metade do século VI. Tendai Saishi foi um dos mais ilustres vultos do pensamento budista, e sua classificação crítica da Doutrina de Buda em Cinco Períodos e Oito Doutrinas exerceu, durante muito tempo, grande influência sobre o budismo da China e do Japão.

Um meticuloso exame mostrará que, na China, os vários sutras foram trazidos, sem a preocupação cronológica de sua origem, e foram traduzidos à medida que chegavam. Diante da numerosidade desses sutras, tornou-se problemático saber a sua origem e avaliação. Conseqüentemente, foi necessário considerar o budismo como um todo e mostrar como alguém deveriam portar-se de acordo com sua própria compreensão desta doutrina. Quanto à avaliação dos sutras, deve-se levar em conta, antes de tudo, a tendência do pensamento chinês. A avaliação feita por Chih-i foi, acima de tudo, a mais sistemática e a mais persuasiva. Mas, modernamente, com o desenvolvimento do trabalho de pesquisa sobre o budismo, mesmo esta dominante influência parece ter chegado a um fim.

Na história do budismo chinês, a escola Zen foi "a que chegou por último". Seu fundador foi Sramana, um monge de um país estrangeiro, chamado Bodhidarma (523-528 a.D); mas as sementes por ele lançadas floresceram gloriosamente apenas depois da época de Hui-Neng (638-713 a.D.), o sexto patriarca desta escola. Depois do século VIII, a Seita na China teve uma série de talentosos mestres que fizeram o Zen prosperar durante vários séculos.

O budismo na China apresentava um novo modo de pensar, que estava profundamente arraigado na natureza de seu povo. Outro não era senão o budismo matizado com o modo de pensar chinês. A doutrina do Buda Gautama, agora acrescida com esta nova corrente, adquiriu vigor, tornou-se impetuosa como um grande rio e chegou a enriquecer países no oriente.

5- NO JAPÃO

A história do budismo no Japão teve início no século VI. A introdução do budismo no Japão verificou-se, pela primeira vez, em 538 a.D., quando o Rei de Pochi ( ou Kudara, Coréia) enviou um embaixador para apresentar uma imagem budista e um rolo de sutras a Corte do Imperador Kinmei. A história religiosa do Japão tem, portanto, mais de 1.400 anos.

Nesta história, o budismo japonês se prende a três focos. O primeiro deles deve ser situado no budismo dos séculos VII e VIII. Para atestar essa assertiva, deve-se fazer referências à construção, que se realizava nesta época, de vários templos como Templo Horyuji (607 a.D.) e o Templo Todaiji (752 a.D.). Fazendo-se em retrospecto desta época, depara-se com um fato que não deve ser omitido, isto é, o fato de que a maré de cultura surgiu inusitadamente alta através de toda a Ásia. Durante este período, enquanto a civilização ocidental estava mergulhada em profunda escuridão, a oriental desenvolvia um movimento surpreendentemente ativo e magnífico, Na China, na Ásia Central, na Índia e nos países dos Mares do Sul,as atividades nos campos intelectual, religioso e no das artes desenvolviam-se vigorosamente. Unindo-se a estes movimentos, o budismo banhava o mundo oriental com sua vasta corrente de humanismo. O novo movimento de uma cultura japonesa, testemunhado pela construção do brilhante Horyuji e do magnífico Todaiji e pelas atividades religiosas e artísticas que surgiram com estes eventos, é notável por mostrar, no extremo oriente,a brisa da maré cultural que cobria vastas áreas da Ásia.

O povo deste país que, por muito tempo, esteve mergulhado na ignorância, agora banhado pela corrente de uma grande cultura e civilização, desenvolveu-se de repente. Tal foi a reviravolta da boa fortuna que favoreceu o povo deste país nestes séculos. E o principal fator, responsável pelo surgimento desta cultura, outro não foi senão o budismo. Conseqüentemente, os templos budistas da época tornaram-se centros de brilhante cultura, e os monges foram os líderes deste novo saber. Aí se desenvolveu uma cultura mais propriamente que uma religião. Este era o estado em que se encontrava o budismo, nos primórdios de sua introdução no país.

No século IX, dois grandes mestres. Saicho (Dengyo Daishi, 767-822) e Kukai (Kobo Daishi, 774-835), apareceram em cena e fundaram duas escolas budistas que, juntas, são conhecidas como o Budismo Heian. Com isso se estabeleceu definitivamente o budismo japonês. Eles adotaram o budismo em seu estado e práticas originais, e fundaram mosteiros no Monte Hiei e no Monte Koya, respectivamente. Durante três séculos depois de sua fundação até a Era Kamakura, estas duas denominações esotéricas - Tendai e Shingon - prosperaram principalmente entre os aristocratas e nas cortes imperiais.

O segundo foco deve ser situado no budismo dos séculos XII e XIII. Nesta época, o Japão produziu grandes e ilustres mestres, como Honen (1.133- 1.212 a.D.), Shinran ( 1.173-1262 a.D.), Dogen (1200-1253 a.D.), Nichiren (1222-1282 a.D.), e outros mais. Mesmo hoje, quando se fala do budismo japonês, é imprescindível que se mencionem os nomes destes grandes mestres. Por que somente estes séculos em questão produziram tão notáveis instrutores? Foi pelo fato de terem enfrentado um problema comum. E qual foi este problema comum? Este problema surgiu, talvez, porque o budismo tenha sido aceito na maneira japonesa de pensar.

Isto nos leva a indagação "Por quê? Não era certo que o budismo foi aqui introduzido muito tempo antes desta época?" Assim é historicamente. Mas também é verdade que foram necessários vários séculos para que o povo japonês pudesse sistematizar e remodelar esta religião importada e faze-la completamente sua. Em síntese, foi a partir dos séculos VII e VIII que se iniciaram os movimentos para a aceitação do budismo, e como conseqüência desses esforços e pela influência dos mestres dos séculos XII e XIII, a aceitação do budismo se completou.

Depois disso, o budismo japonês, firmado sobre o alicerce construído por aqueles mestres, mantém suas glórias até os dias atuais. Desde a época em que apareceram aqueles notáveis instrutores, a história do budismo japonês não conheceu mestres de têmpera daqueles já mencionados. Entretanto, já um fato que atrai a nossa atenção e que é o fruto da pesquisa sobre o budismo original feita nos tempos modernos.

Desde a época de sua aceitação, o budismo japonês foi, de modo geral, o budismo mahayana influenciado pelo budismo chinês. Especialmente, depôs do aparecimento dos grandes mestres nos séculos XII e XIII, a doutrina mahayana formou a principal corrente, tendo os fundadores de seitas como seu centro difusor, assim continuando até hoje. Na história do budismo japonês, o estudo do budismo original começou, aproximadamente, depois da Era Meiji. A figura do Buda Gautama reapareceu brilhantemente diante daqueles que se esqueciam do fato de que houve um fundador do Budismo, ao lado dos fundadores de escola, e isso se tornou claro para aqueles que nunca deram atenção a nada a não ser à doutrina mahayana, e que se esqueceram de que havia também um credo sistemático do budismo. Estas novas fases permanecem ainda na esfera de saber escolástico e ainda não estão fortes bastante para despertar entusiasmo religioso. Mas o conhecimento do povo japonês em relação ao Budismo parece, finalmente, estar atingindo uma grande reviravolta. É intenção do autor deste artigo considerar esta fase como a última dos três focos acima mencionados.

do livro A Doutrina do Buda, 3ª edição, Bukkyo Dendo Kiokai, Japão, 1982, pgs.539-557

encontrado no site da Comunidade Zen-Budista de Curitiba

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